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Entrevista
   
 
 

 

 

Movimento sindical tem que ser revolucionário

10/02/2010

 


Em visita ao Sindicato dos Bancários da Bahia, no dia 1° de fevereiro, o diretor do Departamento de Relações Internacionais da Central dos Trabalhadores de Cuba e membro do Comitê Cubano do Fórum Social Mundial, José Miguel Hernández, falou especialmente para O Bancário sobre sindicalismo, solidariedade ao Haiti e os horizontes do Fórum Social Mundial.

Ney Sá - No Brasil, após a eleição do presidente Lula, as centrais sindicais passaram por grande reformulação. Como é o movimento sindical em Cuba a partir da revolução?
Miguel Hernández
- Antes da revolução o movimento sindical era muito reprimido e a luta era para derrubar as ditaduras. No processo revolucionário os trabalhadores tiveram grande participação através da nossa Central. A mudança de governo, entretanto, não determinou reformulação no movimento sindical. Há contradições, mas não antagonismo. E foram preservadas a autonomia sindical e a identidade própria do movimento.
Desde 1939, portanto 20 anos antes da revolução, Cuba só tem uma central sindical, que hoje tem 71 anos de história revolucionária e de lutas. A principal missão da nossa Central hoje é garantir a consolidação da revolução, ela atua como reguladora entre trabalhadores e governo. Em Cuba, quando o tema é trabalho, não existem leis que não passem pelo crivo dos sindicatos e da Central.
Hoje o movimento sindical está empenhado em estimular maior eficiência dos trabalhadores, porque não há soluções abstratas ou mágicas. Enfrentamos mais de 47 anos de bloqueio, que perdura no governo Obama.

NS - Como tem sido a participação de Cuba na solidariedade ao Haiti?
MH - Quando aconteceu o terremoto, em janeiro, Cuba já tinha ação no país. Havia 300 médicos cubanos no Haiti. Nas primeiras 48 horas após o tremor, o principal atendimento médico foi cubano. Em seguida a esses dois dias, o governo cubano deslocou para Porto Príncipe uma equipe especializada em terremotos e desastres naturais, composta de 500 pessoas entre médicos e outros profissionais.
Por outro lado, a “ajuda humanitária” dos Estados Unidos foi na forma de uma ocupação com 10 mil soldados.

NS - Como você avalia o fato de a grande mídia dar agora grande destaque ao Haiti e, em 2008, praticamente silenciar sobre os furacões que atingiram Cuba?
MH - Não surpreende, basta ver quem controla a mídia. Os furacões causaram um déficit de U$ 10 bilhões, impactando diretamente nos setores de energia, agricultura e moradia.
Habitação, aliás, é um problema histórico em Cuba e alimentação é questão de segurança nacional, uma vez que o país importa quase 80% do que consome.

NS - Você que veio a Salvador para participar do Fórum temático, como avalia o FSM?
MH - O Fórum tem que se converter em espaço propositivo e de ações, aglutinador dos movimentos sociais e não só “espetáculo”. O Fórum no Brasil sempre teve conotação eleitoral, e internamente continua marcado pelas disputas partidárias e entre as ONG’s, mas na Bahia foram os movimentos sociais e não o governo que comandaram o processo.
Nós participamos da reunião do Comitê Internacional do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, que fez um balanço dos 10 anos do Fórum. Ele precisa ser relançado estrategicamente, precisa estar casado com o tempo. Hoje temos uma realidade diferente de 2001.
É preciso acabar o que eu chamo de “indústria do Fórum”, para garantir efetivamente a agenda do movimento social que tem como foco as questões do meio ambiente, soberania alimentar, militarização e crise internacional.

 
 
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