O Bancário: Como você foi parar na Polícia Federal?
Protógenes de Queiroz: Fiz concurso em 1993 e fui fazer academia em 1998 por ser um brasileiro indignado com os rumos que o país estava tomando. Então foi uma opção. Eu já vinha de uma experiência de advocacia e procuradoria. Fui procurador geral do município de São Gonçalo, Rio de Janeiro, onde eu tive o contato com a aplicação de verba pública e também identificando a má utilização dessa verba. Permaneci quatro anos como servidor público municipal. Fui até onde me permitiram. Participei do impetchement de um prefeito de uma cidade vizinha chamada Bonito. Era o prefeito mais bem pago do país. Na época em que preparavam o impetchement do ex-presidente Collor. Esse impetchement serviu de espelho, inclusive com o voto aberto que a Lei não permitia, mas eu criar para abrir o debate dentro do judiciário. Nós estávamos no processo de redemocratização que não nos permitia mais ter voto protegido para beneficiar os poderosos e corruptos. E deu resultado. A partir dali não pude mais continuar o trabalho como procurador. Mas depois, já como servidor público em nível federal, dei continuidade ao combate mais efetivo contra a corrupção como delegado.
O Bancário: Como começou a Satiagraha? E vocês imaginaram que ela fosse chegar a situação que chegou?
PQ: Sim. Isso era previsto. Inclusive comentei com todos os integrantes da minha equipe de policiais sobre a probabilidade de denuncias contra nós do próprio instrumento do Estado. Estávamos mexendo em um esquema poderoso de apropriação das riquezas naturais do país, lavagem de dinheiro, evasão de divisas até o mapeamento do subsolo brasileiro. E apropriado por uma só pessoa, Daniel Dantas. Tudo isso se inicia na década de 90 com o governo neoliberal do PSDB.
O Bancário: É verdade que o Ministro Gilmar Mendes mandou soltar na segunda vez que você determinou a prisão de Daniel Dantas sem ler o seu pedido?
PQ: Eu não entro no mérito dessa decisão do Ministro Gilmar Mendes porque foi uma polêmica. Foram dois habeas corpus nesse sentido na história da república brasileira para um caso como o do Daniel Dantas, mas houve a decisão e nós cumprimos imediatamente de madrugada.
O Bancário: Nas investigações pôde se constatar que havia uma contaminação dos três poderes?
PQ: Havia uma infiltração nesses três poderes. Pessoas comprometidas com outros valores diferentes dos nossos, valores esses que correspondem ao que a Operação Satiagraha retratou desde o simples ato de corrupção até concessões para exploração do subsolo brasileiro.
O Bancário: Qual a participação da mídia nesse jogo todo que a Satiagraha descobriu?
PQ: Eu não classifico a grande mídia brasileira. Eu digo alguns segmentos que estão infiltrados nos diversos meios de comunicação. Existem profissionais servindo ao banqueiro condenando Daniel Dantas, criando escândalos e situações mentirosas e até mesmo notícias para beneficiar o banqueiro e seus negócios. Aliado a isso, ainda tem a utilidade de maneira política como foi feito várias vezes pela revista Veja que, fabricou um escândalo envolvendo o presidente Lula, o diretor geral da PF, Doutor Paulo Lacerda e, o Ministro Márcio Thomaz Bastos. Dizia que tinham dinheiro em paraísos fiscais e na verdade não tinham nada. Foi comprovado que quem fabricou o dossiê foi o banqueiro condenado para prejudicar o governo Lula.
O Bancário: A Satiagraha vai terminar em pizza?
PQ: A Operação atingiu os objetivos de mostrar à população como se encontrava o poder no país de como eram comprometidas as instituições públicas e alguns segmentos das privadas com a criminalidade e a corrupção. Então acho que o objetivo maior foi alcançado e criou um consciente coletivo de repulsa. Agora o objetivo maior, que seria didaticamente melhor para a sociedade, era que houvesse punição e não se tem punição. A condenação só vale para os menos favorecidos, o pobre e negro. Agora para quem tem dinheiro nesse país se livra de qualquer punição.
O Bancário: Como você se sente como cidadão?
PQ: Indignado porque era para ter uma rapidez na conclusão do processo e há uma protelação com o amparo da justiça, o que é o pior. Hoje a grande certeza do criminoso todo poderoso é a justiça. A primeira coisa que ele fala é que a justiça já está apreciando.
O Bancário: Você disse que a lei só existe para o pobre e preto. O que falta para que ela seja cumprida? Mais mobilização da população, consciência, políticas do governo?
PQ: Falta educação. Temos que educar as crianças e criar condições da população exigir políticas públicas para o desenvolvimento do país e para atender as demandas necessárias ao povo. Precisamos de uma reforma política, mas não adianta mantermos os políticos atuais. Temos que renovar o congresso.
O Bancário: O governo Lula desencadeou operações significativas, fez um combate muito bom no plano do Executivo à corrupção e ninguém está preso.
PQ: Isso é verdade. Mas por falha do nosso sistema. Não é por falta de lei nem por falta de instituições. Temos que ter as pessoas certas, no lugar certo aplicando a lei. Não adianta você ter um delegado e um juiz comprometidos e o criminoso não pagar a pena devida.
O Bancário: A mídia é o único segmento no Brasil que não está regulamentada, disciplinada por nenhuma uma lei. Os meios de comunicação fazem o que querem e bem entendem...
PQ: Eu entendo que a comunicação está prevista na Constituição da República. Tem um dispositivo dizendo do papel da mídia brasileira, mas não leva para uma regulamentação dessa atividade e ela deve surgir a partir do debate com a população. Hoje não há o dono da informação. A mídia horizontalizou com a internet e isso proporcionou um acesso ao conhecimento maior da população. Tem que haver um debate para se criar um projeto para regulamentar essa atividade dando a mais ampla liberdade possível aos profissionais de comunicação porque sem liberdade de expressão não se constrói democracia.
O Bancário: Você se filou ao PCdoB. Vai ser candidato?
PQ: Sou filado. Coloquei meu nome a disposição para construir a candidatura que mais adequar ao partido. Apesar se ser baiano vou me candidatar por São Paulo que tem mais de 70% da população nordestina.